Segunda-feira, Junho 16, 2008
Quarta-feira, Maio 28, 2008
Terça-feira, Maio 27, 2008
Latim
Fernando tentou desesperadamente pedir ajuda. Foi-lhe completamente impossível. A língua estava morta.
Quinta-feira, Maio 22, 2008
Terça-feira, Maio 20, 2008
Domingo, Maio 18, 2008
A insuportável piedade
António não suportava que vissem o seu sofrimento e que tivessem pena dele. Era por isso que tinha por hábito arrancar os olhos às suas vítimas antes de lhes perfurar fatalmente o coração.
Sexta-feira, Maio 16, 2008
Domingo, Maio 11, 2008
Outsourcing
Há seis meses que ando a envenenar o meu marido. Já lhe dei de tudo. Se não morrer durante a próxima semana, mando matá-lo.
Quinta-feira, Maio 08, 2008
Quarta-feira, Maio 07, 2008
Terça-feira, Maio 06, 2008
Pensamentos póstumos
Quando começaram a chegar os convidados para o funeral, o salão paroquial demonstrava-se pequeno para acolher tanta gente. Nesse momento, eu, que me encontrava deitado num caixão de veludo azul, comecei a escutar, um por um, os pensamentos de toda aquela gente que ia chegando:
Filha: Era meu pai, mas não é por isso que agora vou fazer de conta que gostava dele. Melhor tivesse nascido órfã.
Filho: Era meu pai mas mais valia que não tivesse sido. Até que enfim que me vejo livre de semelhante monstro. Pudesse a gente escolher a família...
Mulher: Só espero que a terra lhe seja suficientemente pesada. Filho da puta! Fez a minha vida um autêntico inferno e agora ainda tenho que estar aqui a fazer de conta que estou muito triste... ainda tenho que organizar esta palhaçada e pagar as despesas.
Irmão: Espero que descanses em paz. Merecias o inferno mas eu não sou de ressentimentos.
Amante: Sacana tinha de morrer logo agora que íamos viver juntos. E olhem só para a família dele a fazer de conta que estão tristes! Cabrões! Sempre odiaram o homem, faziam-lhe a vida num inferno!
Patrão: Um bom homem. Com os seus defeitos, suas manias, mas um bom homem. Vai ser difícil encontrar alguém para o substituir.
Melhor amigo: Essa morte dá-me medo... será que vou ser eu a seguir? Ainda a semana passada estava tão bem... Acho que vou deixar de fumar. Pelo menos deixar de beber.
Padre: Ou é de mim ou essa cerimónia não vai render muito para a paróquia. Os parentes têm cara de quem só queria é que o infeliz já tivesse morrido há séculos.
Vizinho: A ver se agora consigo estacionar o meu automóvel como deve de ser.
Diante de semelhante espectáculo, fiquei ainda mais animado com o facto de estar morto. E ainda mais feliz por toda aquela gente estar ainda viva e não me poder acompanhar nesta última viagem.
Domingo, Maio 04, 2008
Terça-feira, Abril 29, 2008
Emoções fatais
Era um daqueles dias de uma luminosidade intensa e de um céu esplendorosamente azul. Roberto, mal se levantou, decidiu de imediato que seria um óptimo dia para passear no parque e procurar esquecer as amarguras de um quotidiano cada vez mais amargo. Chegado ao parque, e após comer uma sanduíche, sentou-se no mesmo banco de sempre. Ao fim de alguns minutos, e quando se preparava para ler o jornal, reparou numa criança que se dirigia para ele. Ficou estupefacto. O menino era extraordinariamente parecido com o seu filho. Há mais de três anos que não tinha notícias de António. Praticamente não sabia nada sobre o seu filho desde que Marlene o tinha abandonado levando consigo António então com 4 anos. A presença daquela criança e o sorriso que lhe dirigiu deixaram-no completamente enternecido. Não resistiu a pegar-lhe ao colo e a beijá-lo, deixando escapar algumas lágrimas. De seguida, pegando-lhe pela mão, levou-o até à banca dos gelados e comprou-lhe um corneto de chocolate, o mesmo sabor que António tanto apreciava. Quando regressava com o menino pela mão ao banco de jardim, e imediatamente a seguir a sentir um terrível calor nas costas, ouviu uma voz que lhe dizia: “morre pedófilo filho-da-puta”.
Quarta-feira, Abril 23, 2008
Dormindo com a vidente
- António, tenho que te dizer uma coisa importante.
- Agora? Ah, agora não.
- António, vais morrer muito em breve.
- Credo mulher! Que disparates estás para aí a dizer?
- É. Tenho a certeza. Estou a ver a tua morte com toda a clareza.
- Deixa-te de tretas. Vira mas é essa boca para lá e essa bunda para cá.
Nesse exacto momento a mulher dele entra pela porta do quarto e grita: “António, vais morrer filho-da-puta!” e dispara três vezes cumprindo a profecia na perfeição. Lisete só disse: “Não olhe assim para mim. A culpa não é minha. Eu ainda agora o tinha avisado”.
Segunda-feira, Abril 21, 2008
Sábado, Abril 19, 2008
Economia de escala
- E é só?- Como “é só”?
- Não quer que eu mate mais ninguém?
- Não. É só mesmo a cabra da minha mulher. Porque pergunta?
- Bom, porque se quisesse despachar mais alguém eu podia fazer um preço especial.
Terça-feira, Abril 15, 2008
Alguma coisa acontece...
... quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João...
Os próximos 30 dias serão dias de realidade.
Ou o avesso, do avesso, do avesso, do avesso...
Domingo, Abril 13, 2008
Vida fácil
De Andreia toda a gente dizia que era uma mulher de vida fácil. Depois de mais de 8 horas de trabalho, em que, em média, estava com 6 homens diferentes, Andreia chegava a casa pelas 7 da manhã, vestia o seu filho Pedro, dava-lhe o pequeno-almoço e às 9 horas entregava-o no infantário. A seguir, voltava para casa onde, depois de comer alguma coisa e de ver um pouco de televisão, descansava durante 7 horas. Por volta das 4 da tarde, levantava-se, lanchava, e saia de imediato para fazer compras no supermercado vizinho. De regresso, arrumava a casa e preparava o jantar. Às 18 horas em ponto, ia buscar o Pedro ao infantário e jantavam por volta das 20 horas. Depois de jantar, viam juntos um pouco de televisão até chegar a D. Fernanda que ficaria a tomar conta do Pedro durante a noite. Às 22 horas, Andreia estava de novo na rua para iniciar mais uma noite de trabalho. Para Andreia, os dias repetiam-se assim. Dias de uma mulher de vida fácil. Na vida de Andreia, a única coisa que não foi fácil, foi adormecer agarrada ao seu filho, embriagada pelo gás que lentamente se espalhava pelo quarto.
Quinta-feira, Abril 10, 2008
Quarta-feira, Abril 09, 2008
Tempos mortos
O que é que costumas fazer para matar o teu tempo? Eu? Costumo ler, ouvir música, vou ao cinema, janto com os meus amigos, enfim... acho que faço as mesmas coisas que todas as outras pessoas... E tu? Eu? Não preciso fazer nada. O meu tempo já morreu há muito tempo.
Segunda-feira, Abril 07, 2008
Liberdade em cadeia
Maria João sentia-se estranhamente aliviada. O caixão contendo o cadáver de Eduardo era transportado pelas escadas abaixo a toda a velocidade. Para dizer a verdade, Maria João não experimentava nenhum sentimento de culpa. Experimentava, isso sim, um grande sentimento de liberdade. Ainda há três horas atrás não pensava que isto fosse possível, e agora, quer ela, quer Eduardo, estavam finalmente livres. Quando pousaram o caixão ao fundo das escadas, Maria João ouviu a D. Rosinha, a porteira do prédio, dizer: “Desse já estou eu livre. Menos um drogado para me sujar as escadas”.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
Terça-feira, Abril 01, 2008
Fome de infinito
Depois de ter disparado 7 vezes sobre o corpo de Adosinda, Mário pensou: isto é um crime de amor ou um sonho de plenitude? Na realidade, foi apenas fome de infinito e vontade de amar para além da vida.
Segunda-feira, Março 31, 2008
Sentidos diferentes
Toda a gente pensa que por ser cego, e não poder ver as minhas vítimas, tenho mais facilidade em matá-las. Nada mais falso. Quem não está privado de um sentido tão importante quanto a visão, não pode sequer imaginar o fortíssimo odor expelido por alguém que sabe que vai ser assassinada dentro de alguns instantes.
Domingo, Março 30, 2008
Terça-feira, Março 25, 2008
Conversa com o futuro defunto
Ontem comecei a matar-te, meu amor. Tu sabes porquê. Eu sei que tu sabes. Só não sabes que eu seria capaz de te matar. E muito menos deste modo, tão lentamente. Mas é melhor assim. Tu nunca irias entender. Nunca entendeste o meu altruísmo. Sempre confundiste as minhas atitudes com comodismo e egoísmo. Na realidade tudo fiz para te convencer do contrário. Tudo. Cheguei a consultar um psiquiatra. Que tolice! Mas agora descansa. Amarei o teu cadáver de igual forma. E o teu pó misturar-se-á um dia com o meu. Descansa, come descansado.
Segunda-feira, Março 24, 2008
Domingo, Março 23, 2008
Destaques dos livros: José Cardoso Pires
-VELHO LAVAGANTE - respondo eu. E ele compreende e sorri.
(Dias antes tinha-lhe perguntado: "Sabes alguma coisa da vida dos lavagantes?". "Para mim", dissera ele, "um lavagante é um crustáceo primitivo, sem grandes requintes na cozinha. É mais saboroso que a lagosta e parece que mais selvagem porque não se adapta tão bem aos viveiros. Julgo que é tudo." Então expliquei-lhe que o lavagante é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. "Nesse momento, fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.")
José Cardoso Pires in Lavagante – encontro desabitado, Ed. Nelson de Matos, Lisboa, Março 2006
Etiquetas: Livros
Sábado, Março 22, 2008
Morte assistida
Depois de terem chegado os últimos convidados para a suposta festa, Roberto pediu silêncio, apontou a arma à têmpora direita, e disparou.
Sexta-feira, Março 21, 2008
Quinta-feira, Março 20, 2008
Ilusão de óptica
Quando Ricardo chegou ao seu quarto de hotel, abriu de imediato a janela. No norte da Europa sentia-se sempre mal com o exagero da calefacção nos espaços fechados. Quando olhou pela janela para o prédio em frente, descobriu que não era a única pessoa com calor. Uma mulher, despida da cintura para cima, prostrava-se na janela gingando as ancas ao ritmo de uma qualquer música que Ricardo não conseguia identificar. Num primeiro momento sentiu-se constrangido e afastou-se da janela. Num segundo instante resolveu voltar a espreitar. A mulher continuava lá e parecia agora olhá-lo e sorrir. Retribui o sorriso e abandonou a janela. Depois de instalar todas as suas roupas no guarda-fatos resolveu voltar a espreitar. Desta vez a mulher já não estava sozinha no quarto. Um homem aproximava-se dela por trás e abraçava-a pela cintura acompanhando-a nos movimentos de dança. A mulher parecia acenar e chamar por ele, como que convidando-o a seguir observando e a participar no que tudo indicava ser o início de uma relação sexual de um certo exibicionismo. Embora muito embaraçado, Ricardo decidiu ficar a olhar. Para evitar uma excessiva demonstração de interesse, sobretudo porque temia as potenciais consequências de tal acto, regressou ao interior do quarto para acender um cigarro. Quando voltou a debruçar-se na sua janela, já só teve tempo de ver o corpo da mulher a cair, acompanhado por um grito gélido, acabando esborrachado no asfalto. Ricardo decidiu que, definitivamente, o voyeurismo não era o seu forte.
Quarta-feira, Março 19, 2008
Destaques dos livros: Rubem Fonseca
FÁTIMA APARECIDA
Pediu-me dinheiro para ir visitar o filho. Era Natal, ela não via o filho havia mais de dez anos, desde que saíra de casa, expulsa ou por vontade própria, não sei, e fora viver na rua como mendiga bêbeda.
Foi assim que a conheci, cambaleante, dizendo palavrão. Agora não bebia mais, Jesus Cristo a salvara, Jesus Cristo e eu, que apresentei Jesus a ela dizendo, Jesus quer salvar sua alma, você sabe ler? Ela sabia, dei uma Bíblia de bolso para ela, dessas feitas para semi-analfabetos.
Ela passou a ler a Bíblia todo dia, não bebia mais, nem mendigava. Diariamente eu pagava o almoço dela num boteco ordinário perto da praça onde ela dormia, macarrão, galinha cozida e um refrigerante, sempre esse menu, que era barato e fácil de comer, pois ela tinha poucos dentes. A galinha cozida talvez desse um pouco mais de trabalho para mastigar apenas com as gengivas, mas ela devia dar um jeito.
Na praça ela me disse que agora evitava os carnecedores, devia ser a roda de bêbedos que ela frequentava, às vezes quando eu passava tarde da noite na praça eles estavam fodendo as bêbedas, entre elas a Fátima Aparecida. Esses deviam ser os carnecedores que ela agora evitava, uma boa palavra que merecia ser inventada, lembrava carne, carniceiros, lembrava Cristo, o verbo feito carne, a carne era fraca, maculada por apetites pecaminosos opostos à pureza da alma.
Fui ver na Bíblia que palavra era aquela que precisava ser inventada, carnecedores, e descobri os escarnecedores, que aparecem em várias ocasiões, como neste salmo: bem-aventurado é o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Era isso, os bêbedos que dormiam na praça eram os escarnecedores. Agora Fátima Aparecida fugia deles, ela tinha Jesus e tinha a mim.
Passei a ler a Bíblia sentado com ela na praça onde Fátima Aparecida dormia em dois bancos contíguos, forrados de papelão. Falávamos de Jesus, eu dizia que além da sua alma ela devia cuidar do corpo e levei-a ao hospital público, onde foi atendida no setor de infectologia e deram-lhe remédios para a doença dela que não sei qual era, mas desconfio.
Fátima Aparecida deu entrada num pedido de documentos para poder tirar a sua carteira de identidade, a fim de conseguir um emprego.
Então, como eu disse antes, era Natal, ela foi visitar o filho, mas o filho e a mulher do filho pediram para ela não voltar mais lá. Fátima Aparecida pediu para ver seu neto, o filho disse que o menino estava viajando.
Ela me contou tudo isso num banco da praça, lágrimas escorriam dos seus olhos, mas Fátima Aparecida não soluçava, acho que quando a dor é muito forte o sofrimento é silencioso.
O dia estava raiando, já havia luz suficiente para lermos a Bíblia, e lemos juntos e eu senti que ela estava aliviada.
Obrigada por me transmitir a sua fé, o senhor é um homem muito bom, ela disse. Isso era verdade, eu era um homem bom, e também um grande mentiroso. Não estava interessado na pregação da Bíblia, mas Fátima Aparecida não precisava saber disso. Fiquei sem vê-la uns tempos. Então um dia, à noite, atravessando a praça, vi Fátima Aparecida no meio dos escarnecedores, que estavam fodendo com ela. Eu a arranquei da garra dos outros bêbedos, tendo que dar alguns gritos e safanões, e fui levando Fátima Aparecida pelo braço para o outro extremo da praça. Ela estava inteiramente bêbeda. Você voltou a beber, sua filha-da-puta, eu disse. Ela cambaleou, disse, mas eu tenho Jesus. Respondi, mas Jesus não tem você, ouve, sua idiota, quem salva a gente da merda somos nós mesmos.
E deixei a Fátima Aparecida na praça com os escarnecedores. Foda-se. Não se pode salvar ninguém que não quer ser salvo. E que merda, eu preciso acabar com esse meu complexo de Messias. Salvar os outros? Tenho que salvar a mim mesmo, que não ando lá essas coisas.
Rubem Fonseca in Ela e outras mulheres, Ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2006
Pediu-me dinheiro para ir visitar o filho. Era Natal, ela não via o filho havia mais de dez anos, desde que saíra de casa, expulsa ou por vontade própria, não sei, e fora viver na rua como mendiga bêbeda.
Foi assim que a conheci, cambaleante, dizendo palavrão. Agora não bebia mais, Jesus Cristo a salvara, Jesus Cristo e eu, que apresentei Jesus a ela dizendo, Jesus quer salvar sua alma, você sabe ler? Ela sabia, dei uma Bíblia de bolso para ela, dessas feitas para semi-analfabetos.
Ela passou a ler a Bíblia todo dia, não bebia mais, nem mendigava. Diariamente eu pagava o almoço dela num boteco ordinário perto da praça onde ela dormia, macarrão, galinha cozida e um refrigerante, sempre esse menu, que era barato e fácil de comer, pois ela tinha poucos dentes. A galinha cozida talvez desse um pouco mais de trabalho para mastigar apenas com as gengivas, mas ela devia dar um jeito.
Na praça ela me disse que agora evitava os carnecedores, devia ser a roda de bêbedos que ela frequentava, às vezes quando eu passava tarde da noite na praça eles estavam fodendo as bêbedas, entre elas a Fátima Aparecida. Esses deviam ser os carnecedores que ela agora evitava, uma boa palavra que merecia ser inventada, lembrava carne, carniceiros, lembrava Cristo, o verbo feito carne, a carne era fraca, maculada por apetites pecaminosos opostos à pureza da alma.
Fui ver na Bíblia que palavra era aquela que precisava ser inventada, carnecedores, e descobri os escarnecedores, que aparecem em várias ocasiões, como neste salmo: bem-aventurado é o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Era isso, os bêbedos que dormiam na praça eram os escarnecedores. Agora Fátima Aparecida fugia deles, ela tinha Jesus e tinha a mim.
Passei a ler a Bíblia sentado com ela na praça onde Fátima Aparecida dormia em dois bancos contíguos, forrados de papelão. Falávamos de Jesus, eu dizia que além da sua alma ela devia cuidar do corpo e levei-a ao hospital público, onde foi atendida no setor de infectologia e deram-lhe remédios para a doença dela que não sei qual era, mas desconfio.
Fátima Aparecida deu entrada num pedido de documentos para poder tirar a sua carteira de identidade, a fim de conseguir um emprego.
Então, como eu disse antes, era Natal, ela foi visitar o filho, mas o filho e a mulher do filho pediram para ela não voltar mais lá. Fátima Aparecida pediu para ver seu neto, o filho disse que o menino estava viajando.
Ela me contou tudo isso num banco da praça, lágrimas escorriam dos seus olhos, mas Fátima Aparecida não soluçava, acho que quando a dor é muito forte o sofrimento é silencioso.
O dia estava raiando, já havia luz suficiente para lermos a Bíblia, e lemos juntos e eu senti que ela estava aliviada.
Obrigada por me transmitir a sua fé, o senhor é um homem muito bom, ela disse. Isso era verdade, eu era um homem bom, e também um grande mentiroso. Não estava interessado na pregação da Bíblia, mas Fátima Aparecida não precisava saber disso. Fiquei sem vê-la uns tempos. Então um dia, à noite, atravessando a praça, vi Fátima Aparecida no meio dos escarnecedores, que estavam fodendo com ela. Eu a arranquei da garra dos outros bêbedos, tendo que dar alguns gritos e safanões, e fui levando Fátima Aparecida pelo braço para o outro extremo da praça. Ela estava inteiramente bêbeda. Você voltou a beber, sua filha-da-puta, eu disse. Ela cambaleou, disse, mas eu tenho Jesus. Respondi, mas Jesus não tem você, ouve, sua idiota, quem salva a gente da merda somos nós mesmos.
E deixei a Fátima Aparecida na praça com os escarnecedores. Foda-se. Não se pode salvar ninguém que não quer ser salvo. E que merda, eu preciso acabar com esse meu complexo de Messias. Salvar os outros? Tenho que salvar a mim mesmo, que não ando lá essas coisas.
Rubem Fonseca in Ela e outras mulheres, Ed. Companhia das Letras, São Paulo, 2006
Etiquetas: Livros
Terça-feira, Março 18, 2008
Responsabilidade Lda.
Mas este rapaz não é aquele cigano que entrou há pouco na urgência? Sim, o do acidente de automóvel! É este? E vocês acham que eu o vou operar? Vocês devem pensar que eu sou doida! Nesse cigano eu não ponho as mãos! Não, não é racismo. Não me venham com essas merdas. Eu tenho é medo. E vocês também teriam se estivessem no meu lugar. Imaginem que alguma coisa corre mal durante a operação ou que inclusivamente ele morre? O que acham que a família dele me vai fazer? Eu quero lá saber que eu seja a única médica de serviço! Eu sei. Eu sei que é muito provável que sem a intervenção cirúrgica ele morra na mesma. Aliás, é quase certo. Mas pelo menos assim a responsabilidade não será minha.
Segunda-feira, Março 17, 2008
Cartas na mesa
Tomando em consideração o actual cenário, as opções são as seguintes: ou casas com a minha filha ou morres solteiro. É bom que tenhas em consideração que, na segunda opção, o meu neto nasce órfão de pai, filho da puta e neto de assassino.
Domingo, Março 16, 2008
Sábado, Março 15, 2008
Materialismo histérico da contra-cultura
Mandei estampar um retrato do Che Guevara nos convites do meu casamento. Quero que toda a gente entenda que, no fundo, há uma intenção política neste meu acto de união com o Guilherme.
Sexta-feira, Março 14, 2008
Quinta-feira, Março 13, 2008
Rendimento mínimo garantido
Eu sei mãe. Eu sei que o cheiro começa a ser insuportável. Eu sei que, mais cedo ou mais tarde, toda a gente vai perceber. É. É muito provável que brevemente apareça alguém a perguntar o que se passa. Alguém que estranhou a tua ausência. Mas por enquanto eu não tenho outra alternativa. Eu não posso prescindir do teu cadáver. O teu cadáver é tudo o que tenho. Enquanto eu puder continuar a receber a tua pensão, e essa for a minha única fonte de sobrevivência, não me podes abandonar. Acho que por agora só há uma solução. Ficarias muito aborrecida se eu retalhasse o teu cadáver em pedaços para poder acondicionar melhor o teu corpo e diminuir este mau odor?
Quarta-feira, Março 12, 2008
Terça-feira, Março 11, 2008
Obsessão até ao fim
O cúmulo da obsessão é, depois de termos saído de casa para nos atirarmos de uma ponte, regressarmos para ver se não deixámos o fogão ligado.
Segunda-feira, Março 10, 2008
Domingo, Março 09, 2008
Sem abrigo da liberdade
Completam-se hoje precisamente cinco anos desde que decidi sair de casa e viver na rua. Ao contrário da liberdade que pensava encontrar com esta minha opção de vida, desde essa data não houve um único dia que não fosse perseguido por dezenas de pessoas que procuram, com todos os meios e justificações, libertar-me da minha liberdade.
Sábado, Março 08, 2008
Sexta-feira, Março 07, 2008
Apenas bons hábitos
Há pelo menos 20 anos que Eduardo almoçava sempre no mesmo restaurante. O hábito, mas sobretudo a preguiça e o medo do desconhecido, faziam-no regressar todos os dias àquele local. Era um daqueles restaurantes de bairro, onde toda a gente se conhece e os clientes são considerados gente da casa. Naquele dia, e depois de Ana, a sua colega na contabilidade, lhe ter dito que o achava o homem mais previsível e acomodado que conhecia, Eduardo saiu do escritório decidido a dar uma volta na sua vida. De facto, pensou, não havia razão nenhuma para tanta preguiça, sobretudo quando este comportamento era causador de uma tão má impressão em relação à sua pessoa. Decidiu que uma boa maneira de começar a introduzir mudanças na sua monótona vida era arriscar um almoço no restaurante do outro lado da rua, mesmo em frente ao seu escritório. Nem teve tempo para perceber qual a marca do automóvel que o atropelou. Os seus velhos companheiros de almoço juram que o automóvel que o matou era um Opel Corsa vermelho.
Segunda-feira, Março 03, 2008
Domingo, Fevereiro 24, 2008
Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
Domingo, Fevereiro 17, 2008
Sábado, Fevereiro 16, 2008
Destaques dos livros: Inês Pedrosa
“Perguntas-me por que choro. Ainda bem que choro, Sebastião. É sinal de que os meus olhos ainda servem para alguma coisa. Escoam o naufrágio do meu coração. Pedes-me que deixe que me seques as lágrimas, e começas a beijar-me os olhos — mas já não há beijos que possam acender-me os olhos, Sebastião. Rogas-me que te deixe amares-me, só esta noite. Prometes que amanhã de manhã voltarás a ser o amigo que eu quero. Mas é sempre como amigo que te quero, Sebastião. Não posso perder isso, ou perco tudo. Amantes há muitos, esboroam-se com a madrugada. Dizes que me desejas muito. Tanto. Peço-te desculpa. Sei que não devia ter-te metido nesta situação ambígua. Empurro-te para a varanda, quero fumar um cigarro. Ralhas-me por fumar de mais. Sim, Sebastião, por isso mesmo é que fiquei cega. Insisto em que venhas para a varanda, respiras fundo e isso passa-te. Afianças que não passa nunca. Que atravessas as noites em claro a olhar para mim, a guardar o meu sono, a tentar adivinhar-me os sonhos. Esse teu programa de cinema parece-me um bocadinho monótono, Sebastião. Pedes-me que não desconverse. Não tenho como não desconversar. Amo-te como amigo, Sebastião. Acredita que é esse o amor que dura. Dizes que a medida da duração é a intensidade. Dizes que o tempo é uma medida do sentimento, não dos dias que passam. Dizes que os amigos também se deslaçam, perdem-se. Também eu perdi vários, no tempo em que acreditava que a amizade podia ser múltipla e infinita. Agora só te tenho a ti, e não quero perder-te a troco de uma noite de sexo. Porque sei que te perderia, Sebastião. E não aguento mais perdas, Há pessoas que eu considerava minhas amigas e que nunca mais vi desde que deixei de ver. Esfumaram-se no ar, Sebastião. Restam-me os mortos, os mortos que me falam com as palavras transparentes que escapam aos vivos, os mortos que sabem quem eu sou. Atraio a morte; é isso que te atrai em mim.”
Inês Pedrosa in A eternidade e o desejo, Ed. Dom Quixote, Lisboa, Novembro 2007
Etiquetas: Livros



Anywhere I lay my head



Helena Bonham Carter


