Quando começaram a chegar os convidados para o funeral, o salão paroquial demonstrava-se pequeno para acolher tanta gente. Nesse momento, eu, que me encontrava deitado num caixão de veludo azul, comecei a escutar, um por um, os pensamentos de toda aquela gente que ia chegando:
Filha: Era meu pai, mas não é por isso que agora vou fazer de conta que gostava dele. Melhor tivesse nascido órfã.
Filho: Era meu pai mas mais valia que não tivesse sido. Até que enfim que me vejo livre de semelhante monstro. Pudesse a gente escolher a família...
Mulher: Só espero que a terra lhe seja suficientemente pesada. Filho da puta! Fez a minha vida um autêntico inferno e agora ainda tenho que estar aqui a fazer de conta que estou muito triste... ainda tenho que organizar esta palhaçada e pagar as despesas.
Irmão: Espero que descanses em paz. Merecias o inferno mas eu não sou de ressentimentos.
Amante: Sacana tinha de morrer logo agora que íamos viver juntos. E olhem só para a família dele a fazer de conta que estão tristes! Cabrões! Sempre odiaram o homem, faziam-lhe a vida num inferno!
Patrão: Um bom homem. Com os seus defeitos, suas manias, mas um bom homem. Vai ser difícil encontrar alguém para o substituir.
Melhor amigo: Essa morte dá-me medo... será que vou ser eu a seguir? Ainda a semana passada estava tão bem... Acho que vou deixar de fumar. Pelo menos deixar de beber.
Padre: Ou é de mim ou essa cerimónia não vai render muito para a paróquia. Os parentes têm cara de quem só queria é que o infeliz já tivesse morrido há séculos.
Vizinho: A ver se agora consigo estacionar o meu automóvel como deve de ser.
Diante de semelhante espectáculo, fiquei ainda mais animado com o facto de estar morto. E ainda mais feliz por toda aquela gente estar ainda viva e não me poder acompanhar nesta última viagem.